SEJAM BEM VINDOS!

Este livro, que aos pouco está sendo escrito, é dedicado especialmente a bailarina Layanna Monique ― sinônimo de talento, perseverança e ternura.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

PARTE 1:9: Papai Noel não existe

BruouOmm!!!


A porta foi ao chão num só golpe...
Adentram o quarto daquele menino, a mãe e...
Quem é mesmo esse que está com ela?... 
...ah! sim, é o seu vizinho... 
"O vizinho?!"—reconhece  o garoto encolhido no canto da parede.
A mãe aproxima-se dele, olha-o bem nos olhos e...
—splaft!
Foi uma carimbada certeira, bem no meio da cara que o garoto recebeu  da mão de sua mãe, que com a mesma, tirava, agora,o cinto da saia.


—vizinha, creio que isso não se faz necessário... o garoto já aprendeu a lição.—interviu aquele homem, ao perceber o gesto ameaçador da mãe do menino.
O garoto,  que jaz cabisbaixo,  não ousou mais encará-la, apenas  tentou sossegar  na única lição da noite:
"É...aprendi a lição...papai Noel, não existe".

PARTE 1:8: O Inferno Particular

Toc... Toc... Toc
—Ei mocinho, não vai jantar, não?
Toc... Toc... Toc..
—AlôO? tem alguém aí?


SILÊNCIO GERAL


A mãe do "anjinho" continua batendo na porta do seu quarto, na tentativa de traze-lo para o seu "inferno particular", como  assim ele,  o considerava .
—Não vou mais lhe chamar, se não abrir o ferrolho dessa porta, agora, vou ter que chamar o seu pai pra dar um jeito nisso!


Há coisas que valem qualquer sacrifício... 
Há coisas que não se pode esperar...
Há coisas que se fazem  de  cegos...
e há coisas que ninguém deve duvidar...


Há coisas que se pagam pra ver...
Há outras que não tem preço.
Há crianças que buscam qualquer coisa...
Mas há outras  que sabem a Coisa que buscam...


e aquela criança do quarto  —era uma delas...

PARTE 1:7: O pesadelo do Acordar

Sopra o vento...
...congelante...
e o menino molhado sobe a janela de volta ao seu  quarto... 
Joga-se na cama como está.
Dorme.


Sonha com os anjos,
sonha que é um...
e neste sonho persegue o sol e quer descobrir onde ele mora,
mas mesmo antes que o alcance
O sol se põe e vai embora
Embora suas asas derretessem ao seu calor 


"Não, não vá!... fique por favor!"
Eis o apelo do anjinho das asas cansadas,
que o tempo atropelara, sem mais demoras...
... Agora já era hora de acordar...


"Acordar para quê?
Se sonhar era melhor que o pesadelo do acordar?" — eis a frase pichada do banheiro de sua escola, e que vez por outra pichava seu sono.

PARTE 1:6: de volta ao ventre materno

Submerso...
O menino voltara por um instante, ao líquido amniótico, que lhe fez parecer aquele barrio dágua... 


Se pudesse, nunca sairia de lá... 
Mas o seu curto fôlego, forçosamente o paria...
...Para quê?
Para quê se ali era mais tranquilo e mais seguro?...
Se ali era calmo e sereno, embora escuro...
Mas era tudo o que queria, 
e se pudesse nunca sairia de lá...


—Por que as coisas não podem ser como a gente quer?...
...Por quê?—borbulha o menino.

PARTE 1:5: A voz amiga



         Ao chegar em casa, todo sujo de terra e arranhado da queda da árvore, aquele menino se deparou com a figura inesperada de sua mãe, que à porta, já estava a sua espera... 
Deve  ter largado cedo do trabalho...
Será que alguém contou pra ela que o garoto não esteve na aula? 
Será que  ela  encontrou algum colega do menino pelo caminho da escola? 
Como saber? ... Mil coisas, passou pela sua cabeça quando viu a cara  brava de sua mãe... Aliás, a cara de sempre...


—Onde é que você estava menino!—gritou ela furiosa.
—eu... eu... é que... eu...
—não gagueje, e fale logo!

Foi aí que a ansiedade do menino aumentou, e ele não conseguia mais articular suas palavras, e o menino começou a puxar mais do ar... parecia que faltava fôlego... e a primeira coisa que conseguiu dizer foi:
—é que... eu... fui ver onde mora o sol!—disparou o menino, correndo para seu quarto.
—você o quê?! Volte aqui!... volte aqui está ouvindo?... se não abrir esta porte, você vai ficar de castigo!
SILÊNCIO GERAL.

A essa altura o menino já havia pulado a janela do seu quarto, e já se transportara para os braços de quem a entendia de verdade... a amiga árvore, de sempre...
—só você me entende, minha querida amiga...

No alto de seus galhos, o garoto guardava uma pequena garrafa com água, que agora já estava pela metade, e terminou de secar...
—e agora? ainda estou com sede... se mamãe não ficasse reclamando, reclamando, reclamando, até que eu voltaria para pegar mais um pouco dágua... Queria ficar invisível de novo... Queria poder fazer o que eu quiser, sair na hora que eu quiser e chegar na hora que eu quiser...
"Por quê as coisas num podem ser do jeito que a gente quer?...Por quê?"
—a gente quem?—ouviu-se uma voz.
—ãh!—quem tá aí embaixo?—perguntou o menino assustado.
—aaah...você não vai querer saber...—responde a voz lentamente.
Os olhos do menino começam a encher-se de lágrimas... ele estava com medo... suas mãos ja tremiam ...
... e a voz diz outra vez:
—pra um menino que persegue o sol, e desafia a sede, até que sua coragem não me parece tão grande agora...
O silêncio é geral nesse momento...
—Você está suando frio...—completou a voz, para aquele menino... e ele, por sua vez, gaguejou dizendo:
—co-como você sabe disso?
—pelo toque de suas mãos?
—ãh!
SILÊNCIO GERAL.
       De repente, pula o menino daquela árvore, assustado, agitado, com o coração na boca, dispara em direção ao barrio de água do banheiro de sua casa. Mergulha.

PARTE 1:4: O caminho perdido


   Ainda na pedra, sentado com os olhos fixos no chão, o menino da árvore, percebeu uma fileira de formigas que seguia rumo a uma escalada na árvore mais próxima.
—É isso!— gritou!
O menino subiu imediatamente na "árvore das formigas" para se localizar onde estava.
Esta árvore não era tão alta quanto a sua, mas, no topo  já dava para perceber  o caminho de volta para casa.
Feliz,  eufórico, ao descer da árvore apressado, escorregou de um dos galhos que o  fazia degrau,  e caiu.... Por sorte, o galho em que escorregou,  já estava bem perto do chão. Mas foi um susto e tanto... ficou tonto, e ainda no chão, tentava esperar o impacto passar, quando para sua surpresa, pouco tempo depois, o menino disperta  sob os beliscões das formigas raivosas que reclamavam um galho quebrado, daquela a quem tanto prezava: a árvore sombreira.
        —ai—grita  o garoto assustado com o ardor das mordidas das formigas.
Levanta-se batendo na roupa, tangendo algumas outras presas em algumas partes de sua roupa.
Com o corpo ainda dolorido, segue mancando o caminho percebido no topo da árvore.
—e tudo isso por causa de um sol.—lamenta o menino da árvore, que frustrado, tenta chegar, com o pouco que resta de suas forças, até sua casa.
—Como seria bom, se eu pudesse chegar logo em casa...—pensava o menino.
"Por quê as coisas num podem ser do jeito que a gente quer?...Por quê?"

PARTE 1.3: O Caminho de Volta

   O dia estava apenas começando... Havia muita energia para gastar, muito a se descobrir e muito a se fazer...
O menino desceu da árvore bruscamente num salto! "vrumm!", já estava ele no chão.
         Seguiu em direção ao sol. Queria saber onde ele mora, onde ele dorme, como aparece tão fraco e depois  fica tão quente... e por quê muda de lugar? e por quê não pode ficar ali parado e naquela mesma cor?...
...Correu... correu... mas não conseguiu alcançar o sol a tempo... ele já estava lá no alto, mais forte, e mais quente, e não fez outra coisa a não ser provocar calor e muita sede, ao menino que agora estava sentado em cima de uma pedra, com a língua de fora... Mas, e onde encontrar água no meio de tanto mato? e como encontrar o caminho de volta?
"seria tão bom que eu pudesse fechar os olhos, e num piscar de olhos, poder estar em casa de novo" —pensou.
—Por quê as coisas num podem ser do jeito que a gente quer?...Por quê?

PARTE 1.2: felizes são os animais


 Ao amanhecer,
Levantou-se cedo, muito cedo, e foi rever sua amiga árvore, como de costume.
Alguma coisa lhe dizia que não era pra ter saído da cama, e não foi a escola.
Ficou ali, observando os pássaros, seus ninhos, seus cantos e seus instintos.
      A tinta do céu parecia lhe dizer algo que ele não sabia bem o que era.
"Como seria bom, se não existisse casas, escolas, dever de casa, e trabalho" —pensava ele. "assim, não seria preciso ficar longe de quem a gente mais gosta boa parte do dia... Felizes são os animais"
Em poucos instantes, subiu em cima da árvore, e ficou lá escondido por entre as folhagens, esperando sua mãe ir trabalhar, e então descer para para ficar mais à vontade.
Enquanto isso, lá de cima, se sentiu grande, super, inalcansável e inatingível... invisível perante sua mãe, que agora acabara de passar por ali.
"Como seria bom a gente poder ficar invisível e só aparecer na hora que a gente quiser" —pensava ele.
—Por quê as coisas num podem ser do jeito que a gente quer?...Por quê?
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PARTE 1: A Mãe Árvore



Lá estava ele...
outra vez... 
Na companhia de sua velha amiga árvore...

Ninguém sabia ao certo, se era  ela  que o embalava
ou se era ele que a balançava

Mas ele estava lá, em mais um por-do-sol
conversando com ela
e contando-lhe seus segredos de menino.

Já passada a hora,
Onde o  sol não se despediu,
Não havia mais cor,
Nem flores, nem rouxinol cantando... 
Só sua mãe chamando:
‒ôh menino! tá surdo?! Num ouviu não eu chamar?!... caminhe pra dentro,  tomar banho!.. Já!

O menino desce rapidamente para o banheiro, que ficava do lado de fora de sua casa. O barrio estava cheio daquela água fria, e o vento só ajudava os arrepeios  depois que a pele se molhava.
—brzzz! Estou congelando—sussurava o menino.
Vai para o quarto, passando pelo meio da casa de pés descalços, ao que sua mãe reclama:
—etxa! Molhando a casa toda! Cadê o chinelo?
Ele nem respondeu, já estava no quarto se enxugando em seu "ninho".
Trocou-se, vestiu a camisa pelo avesso, e foi jantar.
—Mamãe, cadê o papai? ainda não chegou?
—Não meu filho, coma e vá dormir, qua amanhã você tem que acordar cedo pra ir à escola.

Durante as poucas colheradas que deu na comida, ele olha pela janela, e vê sua amiga árvore lá no fundo do quintal, e lembra-se, que saiu de lá muito apressado sem se despedir. Como sabia que sua mãe, não deixaria mais sair... O menino foi para o quarto, apagou a luz, e pulou a janela, indo em diração ao tronco amigo de sempre.


E lá estava ele...
outra vez... 

Estendeu seus pequenos braços em volta do tronco, e como num abraço , se despediu e voltou para o seu quarto, tentar dormir...

Trouxe consigo uma folha, e na cama, ja deitado, olhava para ela e dizia enquanto o sono não vinha:
—Por quê as coisas num podem ser do jeito que a gente quer?...Por quê?